Vitamina D: por qué España tiene uno de los mayores déficits de Europa (pese al sol)

Vitamina D: por que Portugal tem défice apesar do sol

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Portugal tem mais de 2.500 horas de sol por ano. É um dos países mais soalheiros da Europa. E, ainda assim, vários estudos mostram que mais de 60% da população portuguesa apresenta níveis insuficientes de vitamina D. Pior ainda: temos níveis comparáveis aos da Noruega ou da Suécia, países muito menos soalheiros. O paradoxo é real — e estende-se a toda a Europa do Sul.

Se isto soa estranho, é porque a associação "sol = vitamina D" é uma meia-verdade. Há um caminho longo entre o sol existir lá fora e a sua pele fabricar a vitamina D que necessita. E nesse caminho estão protetores solares, trabalho em escritório, latitudes que não perdoam no inverno e uma dieta que dá uma fração ridícula do necessário.

Vamos desmontar o paradoxo. O que é realmente a vitamina D, o que faz no seu corpo, por que a sua análise provavelmente mostra défice e quando faz sentido suplementar.

O que é a vitamina D (e porque não é exatamente uma vitamina)

A vitamina D é, tecnicamente, uma pró-hormona. Chamamos-lhe "vitamina" por inércia histórica, mas o seu comportamento biológico é hormonal. A sua pele fabrica-a quando recebe radiação ultravioleta B (UVB), o fígado transforma-a em 25-hidroxivitamina D (calcidiol, o metabolito que a sua análise mede) e o rim converte-a na sua forma ativa, 1,25-di-hidroxivitamina D (calcitriol). É esta forma ativa que atua sobre recetores em praticamente todos os tecidos do corpo.

E essa é a primeira pista de que a vitamina D faz muito mais do que "fortalecer os ossos". Se servisse apenas para isso, não teria recetores no cérebro, no pâncreas, no sistema imunitário ou no coração. Mas tem.

Dado-chave

Entre 80% e 90% da vitamina D do organismo provém da síntese cutânea. Apenas 10-20% vem da dieta. Isto explica por que os alimentos por si só raramente cobrem as necessidades, e por que a exposição solar (ou a suplementação) são as vias principais para manter níveis adequados.

O que faz no seu corpo: para além dos ossos

A função clássica da vitamina D, a que todos conhecem, é facilitar a absorção de cálcio e fósforo no intestino. Sem vitamina D suficiente, pode tomar todo o cálcio do mundo e o seu intestino não o absorverá corretamente. É assim de direto. Por isso o défice prolongado enfraquece os ossos: não porque falte cálcio na dieta, mas porque o corpo não o consegue utilizar.

Mas a investigação das últimas duas décadas demonstrou que a vitamina D tem funções que vão bastante mais além:

Sistema imunitário. A vitamina D regula tanto a imunidade inata como a adaptativa. Estimula a produção de péptidos antimicrobianos (catelicidinas e defensinas) que atuam como antibióticos naturais, e ao mesmo tempo modula a resposta inflamatória para evitar que se descontrole. Uma meta-análise publicada no BMJ com mais de 11.000 participantes encontrou associação entre a suplementação com vitamina D e menor risco de infeções respiratórias agudas.

Função muscular. A vitamina D participa na contração muscular e na manutenção da força. O défice associa-se a fraqueza muscular proximal (a que se nota ao subir escadas ou levantar de uma cadeira) e maior risco de quedas, especialmente em pessoas idosas.

Saúde cardiovascular e metabólica. Níveis baixos de vitamina D foram associados a maior risco de hipertensão, resistência à insulina e doença cardiovascular. A relação causal continua em estudo, mas a correlação epidemiológica é consistente.

Estado de humor. Os recetores de vitamina D estão presentes em áreas do cérebro envolvidas na regulação emocional. Vários estudos encontraram associação entre défice de vitamina D e maior incidência de sintomas depressivos, embora não seja um antidepressivo em si.

Claims aprovados pela EFSA: A vitamina D contribui para a absorção e utilização normal do cálcio e do fósforo, para a manutenção dos ossos e dentes em condições normais, e para o funcionamento normal dos músculos e do sistema imunitário (Regulamento CE 432/2012).

O paradoxo do sul da Europa: por que o sol não basta

Este é o ponto onde a maioria dos artigos fica curta. Dizem "apanhe sol" e ponto final. Mas a realidade tem nuances que mudam completamente o panorama.

A latitude importa, e muito. Para que a pele sintetize vitamina D, os raios UVB devem chegar com um ângulo suficiente. Em Portugal, acima dos 35°N (Lisboa está a 38°N, Porto a 41°N), entre novembro e fevereiro o ângulo solar é tão baixo que a síntese cutânea de vitamina D é praticamente nula. Não importa que faça sol. O ângulo não dá.

Trabalhamos em interiores. As horas de máxima síntese (entre as 10:00 e as 15:00) coincidem com as horas laborais. A maioria da população passa esse intervalo dentro de escritórios, escolas, fábricas ou centros comerciais. E o vidro bloqueia os UVB.

Proteção solar. Aqui há uma tensão real. O protetor solar com SPF 30 reduz a síntese de vitamina D em 95-99%. Mas o protetor solar é necessário para prevenir o cancro da pele. Não é razoável pedir às pessoas que escolham entre vitamina D e proteção contra o melanoma. A suplementação resolve essa tensão.

A dieta não compensa. Os alimentos mais ricos em vitamina D são o peixe gordo (salmão, cavala, sardinha), o óleo de fígado de bacalhau, os ovos e os lacticínios fortificados. Mas as quantidades são pequenas. Uma porção de salmão fornece cerca de 400-600 UI. Necessita bastante mais do que isso por dia se não houver síntese cutânea.

Dado de prevalência

Estudos em populações ibéricas (Portugal e Espanha) mostram que entre 60-75% dos adultos têm níveis de 25(OH)D abaixo de 20 ng/mL. Em pessoas com mais de 65 anos, o défice atinge os 80-100%. E o mais marcante: mesmo em zonas extremamente soalheiras como as Canárias, mais de 60% dos jovens estudantes apresentam níveis subótimos. Se falta vitamina D nas Canárias, falta em todo o lado.

Os países nórdicos, com bastantes menos horas de sol, têm melhor estatuto de vitamina D que Portugal. Porquê? Há décadas que fortificam alimentos e recomendam suplementação de forma sistemática. Em Portugal, essa política preventiva ainda não existe a nível populacional.

8 sinais de que pode ter défice de vitamina D

O problema do défice de vitamina D é que nas suas fases iniciais é silencioso. Não dói, não se vê, não avisa. Mas conforme progride, aparecem sinais que muitas vezes se atribuem ao "stress" ou à "idade":

😴Fadiga persistente que não melhora com descanso e que não tem causa médica clara
🦴Dor óssea difusa, especialmente na zona lombar, ancas e pernas
💪Fraqueza muscular: custa subir escadas, levantar de uma cadeira sem usar as mãos
🤧Infeções frequentes: constipações recorrentes, gripes que demoram a passar
😔Estado de ânimo baixo sem causa aparente, especialmente no outono-inverno
🩹Feridas com cicatrização lenta ou recuperação prolongada após cirurgias menores
💇Queda de cabelo mais pronunciada do que o habitual, especialmente difusa
🦵Cãibras ou contraturas frequentes sem relação clara com o exercício

Se se identifica com três ou mais, vale a pena pedir uma análise de 25-hidroxivitamina D na sua próxima consulta. É uma análise de sangue rotineira e barata. E o resultado vai dizer-lhe exatamente onde está.

Quanta vitamina D necessita realmente

Aqui há debate, e é honesto reconhecê-lo. As recomendações variam conforme a fonte:

Fonte Ingestão recomendada (adultos) Nível sérico objetivo
EFSA / IOM600 UI/dia (800 UI >70 anos)>20 ng/mL
Endocrine Society1.000 - 4.000 UI/dia>30 ng/mL
SEIOMM (Espanha)Variável conforme risco25-50 ng/mL (geral), 30-50 (osteoporose)
Nível máximo tolerável (EFSA)4.000 UI/dia-

O que é claro é que o consenso mínimo situa o limiar nos 20 ng/mL, abaixo do qual há défice franco com repercussões ósseas. Mas muitos endocrinologistas e sociedades científicas defendem níveis de pelo menos 30 ng/mL para cobrir as funções extraesqueléticas. A SEIOMM recomenda explicitamente manter 30-50 ng/mL em pacientes com risco de osteoporose ou fratura.

Uma dose de 4.000 UI diárias (o nível máximo tolerável da EFSA) é uma dose segura e eficaz para a maioria dos adultos saudáveis que querem manter níveis ótimos, especialmente se houver exposição solar limitada, trabalho em interiores ou fatores de risco como idade avançada, pele escura ou obesidade.

Atenção: Se está grávida, em período de amamentação, toma medicação ou tem patologia renal ou que afete o metabolismo do cálcio, consulte o seu médico antes de suplementar. A suplementação em bebés (0-1 ano) e crianças pequenas (1-3 anos) deve ser supervisionada por um pediatra.

D3 vs D2, quando suplementar e como escolher bem

Existem duas formas de vitamina D em suplementação: a D3 (colecalciferol) e a D2 (ergocalciferol). Não são iguais.

A D3 é a forma que a sua própria pele produz. Tem maior afinidade pela proteína transportadora de vitamina D no sangue, metaboliza-se de forma mais eficiente e é significativamente mais eficaz que a D2 para elevar e manter os níveis séricos de 25(OH)D. A D2 provém de fontes vegetais (cogumelos irradiados) e pode ser útil em contextos vegan, mas em termos de eficácia clínica a D3 é superior.

O que procurar num suplemento de vitamina D

Forma ativa D3 (colecalciferol). Certifique-se de que o suplemento especifica que é D3, não D2.

Dose adequada. Para manutenção preventiva em adultos saudáveis, entre 1.000 e 4.000 UI/dia é o intervalo mais respaldado. Se a sua análise mostrar défice severo (<12 ng/mL), o seu médico pode prescrever doses mais altas de forma temporária.

Formulação limpa. A vitamina D3 em si necessita de muito pouco: um excipiente base e a cápsula. Quantos menos aditivos, melhor. Um bom suplemento não precisa de açúcares, corantes nem aromas artificiais.

Tomá-la com gordura. Como lipossolúvel que é, a vitamina D absorve-se muito melhor acompanhada de alimentos com gordura. Com o pequeno-almoço ou a refeição principal, não em jejum.

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A vitamina D e o magnésio são sinérgicos: o magnésio é cofator necessário para a ativação da vitamina D, e a vitamina D facilita a absorção intestinal de magnésio. Se suplementa um, o outro trabalha melhor. Temos um guia completo sobre tipos de magnésio se quiser aprofundar.

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Perguntas frequentes sobre vitamina D

Porque há tanto défice em Portugal se temos sol?

Porque a síntese cutânea depende do ângulo dos raios UVB, não apenas das horas de sol. No inverno, acima de 35°N, o ângulo é insuficiente. Além disso, a maioria de nós trabalha em interiores durante as horas de máxima síntese (10-15h), usa proteção solar e a dieta portuguesa fornece muito pouca vitamina D. Os países nórdicos têm melhor estatuto porque há décadas têm políticas de fortificação e suplementação.

Quanta vitamina D preciso por dia?

Para manutenção em adultos saudáveis, entre 1.000 e 4.000 UI/dia. A EFSA fixa 4.000 UI como nível máximo tolerável. A Endocrine Society recomenda pelo menos 1.000-2.000 UI para manter níveis acima de 30 ng/mL. Se a sua análise mostrar défice severo, o seu médico pode prescrever doses temporárias mais altas.

D3 ou D2? Qual escolho?

D3 (colecalciferol). É a forma que a pele humana produz, tem maior afinidade pela proteína transportadora no sangue e é mais eficaz para elevar os níveis séricos. A D2 (ergocalciferol) é de origem vegetal e pode ser uma alternativa em dietas vegan estritas, mas em termos de eficácia a D3 é claramente superior.

Pode tomar-se vitamina D em excesso?

Sim, mas a toxicidade é rara com doses padrão. Ocorre tipicamente com doses sustentadas superiores a 10.000 UI/dia durante meses, causando hipercalcemia. A 4.000 UI/dia (nível máximo tolerável EFSA) não foram descritos efeitos adversos em adultos saudáveis. A exposição solar não causa toxicidade porque a pele autorregula a produção.

Tomo com ou sem comida?

Com comida. A vitamina D é lipossolúvel e absorve-se muito melhor com alimentos que contenham alguma gordura. Com o pequeno-almoço ou a refeição principal é o ideal. Não em jejum.

Posso combiná-la com outros suplementos?

Sim. A combinação com magnésio é especialmente boa, já que o magnésio é cofator da enzima que ativa a vitamina D. Também é compatível com ómega-3, probióticos e multivitamínicos. Não há interações relevantes com suplementos habituais.

Fontes e referências científicas

[1] Fernández-Vicente T, et al. Vitamin D status in a healthy young Spanish population. Scientific Reports / UOC. - nature.com/srep

[2] SEIOMM. Recomendações sobre o estatuto de vitamina D e suplementação. Rev Osteoporos Metab Miner. - scielo.isciii.es

[3] Hernández JL, et al. Prevalência de hipovitaminose D na Rioja: estudo com mais de 21.000 pacientes. - faesfarma.com

[4] González-Molero I, et al. Elevada prevalência de hipovitaminose D nos estudantes de medicina de Gran Canaria. Endocrinol Nutr. 2011. - elsevier.es

[5] Jolliffe DA, et al. Vitamin D supplementation to prevent acute respiratory infections: systematic review and meta-analysis. BMJ. 2017;356:i6583. - PubMed 28202713

[6] Holick MF. Vitamin D deficiency. N Engl J Med. 2007;357:266-281. - PubMed 17634462

[7] Endocrine Society. Clinical Practice Guideline: Evaluation, Treatment, and Prevention of Vitamin D Deficiency. J Clin Endocrinol Metab. 2024. - academic.oup.com

[8] EFSA Panel on Dietetic Products. Scientific opinion on the tolerable upper intake level of vitamin D. EFSA Journal. 2012. - efsa.europa.eu

[9] Regulamento (CE) 432/2012. Lista de declarações autorizadas de propriedades saudáveis. Jornal Oficial da União Europeia. - eur-lex.europa.eu

[10] Percovich JC. Vitamina D: défice em Espanha, funções imunitárias e recomendações. Hospital Ruber Internacional, Madrid. - infosalus.com

Aviso: Este artigo tem caráter informativo e não substitui o conselho médico profissional. Consulte sempre um profissional de saúde antes de iniciar qualquer suplementação, especialmente se está grávida, em período de amamentação, toma medicação ou tem uma condição médica preexistente.
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